domingo, 9 de julho de 2017

Sono rubro

Dobrando a esquina, vi a ambulância em frente à minha casa. Cansado do dia de trabalho – ou de estudo ou de atividades físicas, não sei, mas certamente cansado –, avistei a ambulância. Ao contrário do que eu planejava, não descansaria. Uma dor aguda atingiu minha coluna, o suor rapidamente empapou minhas mãos. Uma ambulância. Uma multidão em torno dela. O vermelho da sirene silenciosa coloria a fachada cinza de onde eu vivia e salpicava de cores de sangue a noite negra de uma rua mal-iluminada.

Não, eu não descansaria. E realmente não sabia por que estava cansado, mas me encontrava exausto. Não conseguia andar com a pressa que eu tentava impor aos meus passos. Me contorcia na cama e caminhava rumo à ambulância. Pensei nos meus dois filhos, na minha esposa... O que teria acontecido? A quem teria acontecido? Eu caminhava, muito mais lentamente do que gostaria, mas minhas pernas falhavam na tentativa de empurrar a calçada para trás, minha boca falhava na tentativa de emitir um grito que me pudesse despertar.

Num lampejo de consciência, tateei o meu lado e senti minha esposa. Ela estava ali, um alívio. No entanto, restavam meus filhos, em outro quarto. Por exclusão, concluí que o problema havia sido com um deles. O vermelho da noite me cegava. Eu caminhava. Queria correr e não podia. Que cansaço era aquele que despencava sobre mim, como uma força imperiosa capaz de deter meu desespero? Soquei a cama, frustrado, esgotado, tudo se movia em mim, menos a boca. Não gritava. Não corria. Não descobria o que fazia uma ambulância em frente à minha casa, o que faziam as pessoas àquela hora da noite. Se ao menos elas pudessem abrir um pequeno espaço entre si e me possibilitassem ver, daqui de longe, uma pista que desvendasse o mistério que me inquietava.

Naquele passo, eu levaria toda a noite até chegar ao local almejado. Mas eu tinha que prosseguir. Ou gritar e pôr fim a tudo ou andar, ainda que a passos lentos. Casa por casa, pouco a pouco fui me aproximando. Alguns vizinhos já me notavam. Franziam seus lábios e inclinavam a cabeça, num curioso misto de solidariedade e reprovação. Quis perguntar o que havia acontecido, nenhum som emiti. Andei um pouco mais e pude ver uma maca, sendo carregada de dentro da residência rumo à parte traseira da ambulância. Pelo tamanho da pessoa que era carregada, descartei a possibilidade de algo ter acontecido com meus filhos. O vermelho da sirene, porém, ainda me distanciava de um correto entendimento da situação. Um adulto. Tateei de novo a cama, minha esposa estava ali. Não era ela. Era eu. Era eu quem estava sendo socorrido pela equipe médica. Quis gritar, mas fracassei de novo. Continuei andando. Cheguei ao local. Uma pessoa uniformizada impediu minha passagem. Quis lhe explicar que o acidentado era eu, que eu tinha o direito de perguntar o que tinha acontecido comigo. Não lhe podia falar, porém. Sorte minha que ele próprio perguntou:

– O senhor conhece a vítima?

Sacudi a cabeça num gesto afirmativo. Cerrei as mãos, desmanchei os lençóis, chutei o baú, tensionei todos os músculos do corpo e, por fim, gritei. Gritei. Gritei que sim. Gritei que sim, sim, sim, sou eu. Sou eu! E, ofegante, abri os olhos.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Inacabado

Papéis bagunçados dominavam a escrivaninha, alojada no pequeno cômodo ao lado da copa. Em frente ao móvel, uma outra mesa, ainda menor, era o espaço do microcomputador, ligado. Nele, o descanso de tela não escondia uma página de uma loja online, com uma compra incompleta. Seus campos estavam preenchidos com os dados do comprador e de seu cartão de crédito, mas o cursor do mouse repousava preguiçosamente sobre o botão "confirmar".

Livros estavam espalhados no colchonete do corredor: alguns abertos; outros, fechados, atravessados por um marcador de página. O aparelho de som tocava alguma canção instrumental. O apito da máquina de lavar anunciava que as roupas já estavam limpas. Um pão cortado, ao lado de uma faca suja da manteiga cujo pote ainda se encontrava aberto, passava a impressão de que alguém não havia terminado a feitura de seu lanche.

Leitura correta a que o alimento transmitia, pois o homenzinho realmente se lembrara de que havia findado o presunto para o seu sanduíche. Resolvera ir rapidamente ao supermercado na calçada em frente à de sua residência, mas o estabelecimento devia a um Fiat preto a não consolidação daquela venda, pois havia sido este o automóvel que atropelara o rapaz, deixando-o fatalmente estendido rente ao meio-fio.

O motorista não parou o veículo. Respondeu posteriormente à acusação de omissão de socorro. Às autoridades, disse que um morto é só um morto, que não havia razões para estacionar, pois imediatamente percebera que a vítima era fatal, não restando, portanto, nenhum propósito em prestar qualquer tipo de socorro. Não se socorrem defuntos, afirmou ele, chocando até os policiais já endurecidos pelo árduo cotidiano.

Igualmente se revoltaram com tal declaração os papéis em cima da escrivaninha, a escrivaninha embaixo dos papéis, o computador em cima da mesa e a mesa embaixo do computador. Este passou dias inutilmente ligado, assim como a máquina de lavar e o aparelho de som. O pão mofou, a manteiga amoleceu e os livros jamais foram reabertos. Todos os objetos se enfureceram com a frieza do condutor – revolta compreensível, é claro, afinal eles ainda estavam vivos.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O avô e o neto momentos antes da morte

O menino de 12 anos conversava com seu avô, no quarto do hospital.

 Como foi a sua vida?

 Que pergunta… Parece que já estou morto.

 Não! Não foi o que eu quis dizer!

Mas foi o que ele quis dizer.

Era uma tarde fria de julho, ainda mais gelada no quarto hospitalar.

 Não se preocupe. Eu sei que vou morrer em breve.

 Não fala assim!

 A minha vida foi boa  ele respondeu, por fim. Não teve forças para elaborar mais. Cada palavra enunciada era uma enorme dificuldade.

 Descansa. Dorme um pouco. Não precisa falar.

O médico entrou no quarto. Sempre se surpreendia com a postura do menino, aparentemente maduro para a idade.

 Como estão as dores?  perguntou o doutor.

 Não dói mais nada… Mais nada… – respondeu o doente.

O médico revisou os equipamentos que ainda mantinham vivo o paciente, e logo saiu. Não demorou muito para o enfermo fechar os olhos, ainda não em definitivo.

O neto e o avô ficaram assim por mais de uma hora. Um, dormindo; o outro, encarando o nada, imerso em uma atmosfera de luto antecipado.

 Como ele está?  perguntou uma enfermeira, passado mais algum tempo.

 Bem. Dormindo.

 Estou no corredor. Qualquer coisa, me chama.

O acompanhante concordou. Seu olhar sempre visava a barriga do doente, para se certificar de que ela ainda subia e descia.

Dada hora, o paciente acordou. Com esforço, pronunciando sílaba por sílaba, ainda conseguiu dizer:

 Só quero me despedir. Estou morrendo... Agora.

O outro chorou. Já não podia fazer mais nada para manter com ele uma das pessoas por quem mais tinha amor. Segurou sua mão. Viu a vida se apagar naquele leito.

A cabeça do menino tombou definitivamente para o lado.  Aos prantos, o velho saiu do quarto para comunicar a morte de seu amado neto.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A névoa

Vou andando para onde não há nada, ou há, não sei. Creio não haver. Isso me incomoda, não sei por quê: onde estou, já tenho tudo do que preciso.

Retifico. Aqui, onde estou, é um lugar que não existe, pois já não estou mais ali. Estou sempre um passo além. Vou encontrando as coisas, mas, até pouco tempo, não sabia o que veria. Só enxergo os lugares quando os alcanço. A escuridão e a imprevisibilidade me assustam.

As árvores são bonitas, o céu é bonito, o mar, o lago, o sol, a neve, a chuva, as nuvens, há tanta beleza nisso tudo, nessas coisas que acompanham minha trajetória incerta. Mas tudo isso está ao meu lado, ainda que o local onde estou agora não seja o mesmo em que estarei em breve. À minha frente, não há nada.

À minha frente, está tudo tão escuro... Ou melhor, escuro, não. Está cinza. Acinzentado. Como uma névoa. Eu vou vencendo essa neblina e, passo a passo, vou reencontrando aquelas coisas que, desde lá atrás, nunca me abandonaram: as árvores, o sol, o céu...

Um bom observador contemplaria as laterais do percurso, os ambientes onde as belas coisas estão. Mas tal não sou. Se à frente não há nada, por que meus olhos encaram aquela direção, em vez de visar os lados? Às vezes, é até melhor olhar para trás do que para frente, pois o que ficou pelo caminho também é bonito. Tudo é melhor do que olhar para frente. Pode até ser que haja beleza no porvir, mas a desconheço. Continuo vendo apenas névoa e mais névoa.

sábado, 19 de março de 2016

A patrulha

A cidade havia virado as costas para seu Azevedo. As mães tapavam os olhos dos filhos, os homens de bem desviavam seus caminhos, o pai de família franzia o cenho, todos se inquietavam quando cruzavam com seu Azevedo pelo caminho. Não queriam nem sequer olhar para ele. Seu Azevedo andava triste, ressentido, magoado, mas entendia seus conterrâneos. Bem no fundo, podia compreender a ira que dele sentiam.

A patrulha já estava na cola de seu Azevedo. Era questão de dias até ele ser preso. Era essa a única razão pela qual os moradores não haviam feito justiça com suas próprias mãos. Seu Azevedo fora outrora muito querido por todos os habitantes da cidade, passava horas proseando no bar da praça com todos os transeuntes, tinham nele um espelho de caráter e boa conduta, e, por isso mesmo, a decepção geral foi muito maior quando souberam que seu Azevedo havia acobertado o mais terrível crime da história da cidadezinha.

– Agora, aconteceu uma vez, acontecerá sempre! Acabou a paz daqui! – falavam uns.

– Os bandidos estão vindo tudo da capital! – reclamavam outros.

Juca Valente era o codinome do malfeitor. Roubara o supermercado do seu Zeca, um dos pioneiros do comércio da cidade e respeitado por toda a gente. Depois do assalto – que, dizem, teve até arma de fogo –, Juca Valente fugiu a pé, escondeu-se na mata e, no dia seguinte, assassinou o marceneiro da rua B, cravando uma faca em seu pescoço. 

A princípio, não houve ligação entre os dois crimes. A hipótese dos investigadores é de que, após o assalto, Juca se viu tomado por uma rara valentia – parece que, apesar de seu apelido, ele era um pouco medroso – e foi tirar satisfações com o marceneiro quanto a uma antiga dívida que existia entre os dois. Na discussão, segundo testemunhas, Juca disse que o marceneiro deveria trocar as letras de sua profissão e tornar-se um mercenário, e o marceneiro disse que mercenário era Juca, que estava lá cobrando dinheiro de um pobre diabo como ele. Juca, furioso, respondeu que teve que assaltar um supermercado para conseguir comida, e o marceneiro replicou que isso nada tem a ver com pobreza, mas com caráter. Os ânimos se acirraram e deu no que deu.

Ninguém saiu de casa naquele dia. Um assassino estava à solta! Acontece que, quando a patrulha da cidade resolveu tomar providências, Juca já havia desaparecido. A patrulha – que, na verdade, era uma polícia como outra qualquer, mas todo mundo chamava de patrulha – bateu de porta em porta à caça do delinquente, entretanto ninguém sabia de seu paradeiro. 

– É óbvio que ele não se escondeu na casa de ninguém! – fofocavam no dia seguinte. – Juca a essa altura já deve estar a quilômetros de distância!

Foi aí que se enganaram. Juca Valente estava justamente na casa de seu Azevedo.

– Homem! No que é que você foi se meter? – perguntou Ivanilde, a única pessoa que não havia dado as costas a seu Azevedo, provavelmente porque ainda nutria por ele uma paixão de anos passados. 

– Não fiz nada de errado – respondeu seu Azevedo.

– Como não? Enquanto a patrulha estava à procura de um terrível criminoso, você escondeu o bandido na sua casa! 

– Eu não escondi ninguém. E não menti para ninguém. Na minha casa, ninguém veio me perguntar se eu sabia do paradeiro do homem.

– Você me diz, então, que não está arrependido?

– Não estou. Entendo que todos estejam chateados comigo, não culpo ninguém. Mas, justamente por não culpar ninguém, tampouco posso condenar um homem. 

– Um homem? Um monstro! Você não sabe o que ele fez?

– Sei. Ele mesmo me contou.

– E vocês ainda conversaram?

Seu Azevedo contou à Ivanilde que estava em sua cadeira de balanço, no quintal, com a porta de casa aberta, como sempre faz. Tarde da noite um homem sujo e visivelmente assustado chegou em sua casa, pedindo por água. Seu Azevedo simplesmente disse que ele poderia entrar e se servir. Seu Azevedo percebeu sangue na camisa do rapaz e, antes que Juca Valente cruzasse o limiar da porta, o velho mandou que o outro tirasse a camisa e a deixasse do lado de fora.

– Não quero sangue de crime na minha casa.

Juca obedeceu, sem falar uma palavra. Entrou e ficou por lá por aproximadamente meia hora.

– E você não ficou com medo de que ele te roubasse? – perguntou Ivanilde.

– O que eu tenho de valioso não pode ser roubado.

– Ou te matasse!

– Não temi nada. Depois de meia hora, ele saiu por conta própria. Eu não iria lá retirá-lo à força de minha casa. Todos são bem-vindos aqui. Ele não foi o primeiro a entrar, servir-se e sair quando melhor lhe aprouvesse.

– Mas era um assassino! E você sabia disso, porque viu o sangue na camisa dele!

– E quem me garante que os outros que aqui vieram também não eram assassinos?

Seu Azevedo disse que, ao sair, Juca desabou em seus pés, garantindo que havia feito "burradas em sequência".

– Burradas em sequência… Essa é boa… – ironizou Ivanilde.

– Não sei se ele esperava que eu o confortasse ou recriminasse. Não fiz nenhum dos dois. Ele perguntou se poderia dormir em minha casa. Eu concordei. Ele dormiu aqui por três dias e, depois, se foi, não sei para onde.

– Durante esses três dias, a patrulha buscou como doida o rastro do Juca! Ninguém podia imaginar que você cederia sua casa para um monstro.

– Se a patrulha tivesse vindo aqui, eu não mentiria.

– Mas você sabia dos crimes! Por que você mesmo não foi à patrulha denunciar a localização do bandido?

– Porque meu teto é um abrigo, não uma emboscada.

– Olha! Não dá para te entender… Você agora é mais odiado do que o próprio Juca. 

– Tenho ciência.

– E foi o próprio Juca que te cagoetou, quando foi pego pela patrulha.

– Ele só falou a verdade.

– Sua vida acabou, Azevedo! Não vai demorar até a patrulha te prender. 

– Também tenho ciência.

– Por que você não foge?

– Eu moro nessa casa há cinquenta anos. Não sairei daqui por ter feito o que mandou minha consciência.

E, assim, passaram-se mais dois dias, até que a patrulha realmente chegou. Encontraram seu Azevedo na velha cadeira de balanço, tomando café, de olhos fechados. Não precisou abri-los para se levantar e oferecer os punhos aos policiais. Algemado, foi levado até a delegacia. O carro da patrulha desviou do caminho mais curto só para poder passar pelas ruas principais da cidade, exibindo o rosto de seu Azevedo para toda a população. O que mais lhe doeu foi ver os olhos de ódio e reprovação vindos de todos. Alguns ensaiavam xingamentos, mas, como um todo, a atitude das pessoas era de um silencioso desapontamento. Muito diferente do ataque de fúria que se vê nas grandes capitais, quando um crime de grandes proporções se torna público. Aqui, o ódio que todos sentiam por seu Azevedo era bem mais genuíno e muito menos passageiro.

A popularidade da patrulha, que andava em baixa por causa da demora em prender Juca Valente, subiu vertiginosamente depois da prisão de seu Azevedo. Até então, as críticas eram muitas. Diziam que se tratava de uma polícia frouxa, que pedia licença para entrar na casa dos outros, uma patrulha morosa que havia perdido o tato para lidar com crimes, uma vez que havia anos desde a última infração na cidade (um mero roubo de galinha ou algo assim). Mas, agora, os elogios eram muitos. O chefe da polícia virou prefeito em uma eleição que aconteceu em menos de um ano após a prisão de seu Azevedo.

Vizinhos ouviam toda noite gritos vindos da prisão. Reconheciam a voz de seu Azevedo. Estava sendo torturado. Ivanilde era a única a visitá-lo na cadeia. As sessões de tortura só fizeram a popularidade da patrulha aumentar ainda mais. Era, de longe, a instituição mais respeitada da cidade.

Porém, ao contrário do que se esperava, a almejada paz não reinou. Estranhamente, pairava no ar uma sensação de insegurança, uma tensão permanente. O primeiro a queixar-se explicitamente foi Fagundes, ao dizer que "não precisava ser tratado daquela maneira". Falou baixo, em tom de confissão, a um amigo próximo, referindo-se ao episódio da semana anterior. Fagundes estava no bar, quando iniciou uma discussão com o dono do estabelecimento. Dizia ele que tinha bebido uma cerveja a menos do que estava sendo cobrado. Nada sério, nada inédito. O próprio bate-boca era entrecortado por uma sessão de risos. Entretanto, um patrulheiro estava no recinto. Ele se aproximou de Fagundes e perguntou, em alto tom:

– Você vai pagar o que deve ou não?

Ninguém esperava por aquela intromissão, nem mesmo o proprietário do bar. Fagundes pagou até demais e saiu do estabelecimento cabisbaixo e envergonhado. No dia seguinte, o dono do boteco levou um engradado de cervejas a Fagundes, como pedido de desculpas pelo ocorrido.

Juçara foi outra que passou vergonha. Foi levada para casa truculentamente por um policial, às onze e meia da noite. No portão, o patrulheiro perguntou à mãe, em alto som, para toda a vizinhança ouvir, se ela sabia onde a filha estava àquela hora da noite. A mãe sabia que Juçara estava com o namorado na praça, mas achou que era seu papel indignar-se. O patrulheiro não faria toda aquela cena se não fosse esperado, por parte da mãe de Juçara, um ato de feroz repúdio ao comportamento da filha. Com o dever de missão cumprida, o justiceiro deixou a menina na porta de casa.

Cinco cidadãos foram presos em uma semana, por comportamentos que sempre tiveram, mas que, outrora, não seriam passíveis de punição. As pessoas já não ficavam mais até tarde da noite conversando na rua, como antigamente. Os meninos foram proibidos pelos pais de jogar futebol na calçada, desde que um deles acertou a bola no vidro de um carro estacionado e a mãe teve que passar a noite na delegacia.

Até que, por fim, aconteceu uma desgraça maior. Essa foi considerada, até então, a maior tragédia da história da cidadezinha, muito pior que o caso do Juca Valente.

Tingo tinha bebido todas no bar. Queria esquecer a surra que seu time de futebol tinha levado para o arquirrival na véspera – ou esse era o pretexto. Estava caindo de bêbado, mas já se encaminhava para casa. Na porta de sua residência, flagrou um patrulheiro fazendo graça para a sua esposa. Ela não dava bola, mas ele insistia. Tingo enraiveceu-se:

– Ei, doutor! Essa mulher é minha!

O policial olhou ironicamente para Tingo e respondeu:

– Nem todas as mulheres têm sorte na vida.

Tingo, tomado pela coragem que só o álcool oferece, mandou o patrulheiro à merda. Este puxou a arma. A mulher correu em direção ao policial, pedindo desculpas em nome do marido. O patrulheiro perguntou se Tingo tinha plena consciência sobre as palavras que ele acabara de proferir ou se estava bêbado o suficiente para tal inconsequência.

– Bêbado! Ele está bêbado! – gritou a esposa. – Por favor, deixe-o em paz.

O policial agarrou violentamente o rosto da mulher, beijou-a à força, apalpou seu seio e dirigiu-se a Tingo:

– O que você disse mesmo, seu bêbado de merda?

Tingo pegou um paralelepípedo solto ao chão e correu, aos tropeços, em direção ao policial, mas foi baleado no percurso. Caiu morto. A mulher gritou, desesperada. O patrulheiro virou as costas e foi-se embora, mas, antes de dobrar a esquina, também atirou nela. O casal, que era um marco da cidade, morreu junto.

A comoção foi geral. As coisas não estavam certas. A população se juntou em protesto e marchou até a prefeitura. Queriam queixar-se da patrulha. Tinham que ir todos juntos, pois, do contrário, a meia dúzia de gatos pingados que aparecesse poderia ficar marcada pelos patrulheiros ou até mesmo ser assassinada. Então, foram duzentas cabeças a fim de falar com o prefeito.

Acontece que o prefeito era o antigo chefe da patrulha. Em um primeiro instante, negou-se a recebê-los. Porém, convencido pelos seus conselheiros de que duzentas pessoas não podem ser ignoradas em uma cidade pequena, disse que tudo bem, ouviria o que eles lhe tinham a dizer, desde que se organizassem em fila. Foi assim que essas duzentas pessoas formaram uma fila indiana, no corredor externo de acesso ao prédio da prefeitura, enquanto que o prefeito tomou para si a sacada superior, de onde poderia se comunicar com todos os presentes.

Elegeram um porta-voz. Ele enunciou as primeiras palavras:

– Senhor prefeito, a população de…

Foi quando se ouviu uma quantidade interminável de tiros. Patrulheiros já estavam posicionados acima da sacada do prefeito. Cento e cinquenta das duzentas pessoas morreram na hora, trinta foram assassinadas em perseguições futuras e outras vinte, tidas como as líderes do movimento, foram presas e torturadas.

Daí para frente, restaram o vento, o sol, a chuva, as nuvens e o mato. Nem mesmo os bichos costumam visitar aquele lugar. A população acabou por ser dizimada, e os poucos que restaram se mudaram para cidades vizinhas. Os policiais, sem terem em quem mandar, foram redistribuídos para outras regiões do estado.

Nunca mais se soube nada de seu Azevedo, Ivanilde, Juca Valente, Fagundes, Juçara e tantos outros. A cidade sumiu do mapa. Só restou a história de um povoado que não mais existe.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O impulso

Ela estava em um riacho, pulando de pedra em pedra para atravessá-lo. Era uma aventura arriscada, porque a profundidade da água era grande e ela não sabia nadar. Já havia pulado sete pedras, quando percebeu que a oitava era falsa. Tratava-se da cabeça de um jacaré, camuflado. Um sentimento de pânico a abateu. Olhou para trás, queria voltar. No entanto, as pedras pelas quais ela tinha vindo sumiram. Só podia prosseguir. Deveria pular sobre o jacaré. Tomou impulso e foi. Acordou. 

Não teve tempo para se aliviar. Quando acordou, notou que seu prédio pegava fogo. Estava no vigésimo andar de um edifício cujos andares mais baixos já haviam sido tomados pelo incêndio. O prédio estava desmoronando. Ela teria que pular. Certamente, morreria na queda, mas que diferença fazia? Se ficasse, também morreria. Tomou impulso e foi. Acordou. 

Despertou com ladrões invadindo sua casa. Desejaria morar no prédio em chamas do sonho, onde os bandidos encontrariam maiores dificuldades para entrar. Sua casa, porém, era baixa, sem cerca, com a porta dando diretamente para a rua. Correu em direção ao toalete, onde pretendia se trancar. Os ladrões entraram no seu quarto no instante em que ela alcançou o banheiro. Um dos criminosos notou e apontou a arma em sua direção. Parecia novato no mundo do crime, estava assustado, atiraria por inexperiência. No instinto, ela abriu a janela do cômodo e se esgueirou para pular. Na parte de fora, porém, outro bandido a esperava. Não teve tempo para decidir se morreria no interior ou no exterior da casa. Tomou impulso e foi. Acordou. 

O celular tocava ao lado da cama. Era seu filho. Agradeceu a ele por tê-la tirado de sucessivos pesadelos. Porém, ela não esperava pela notícia que ele tinha para lhe dar. Acabara de ser raptado. Estava telefonando escondido dos sequestradores. Ele passou a localização aproximada de onde achava estar o cativeiro. Ela tentou contatar a polícia, sem êxito. Ia ela mesma salvar seu filho, num inconsequente ato de loucura. Correu em direção ao carro e girou a chave na ignição. Tomou impulso e foi. Acordou. 

Seu marido a sacudia na cama:

 Estou saindo para o trabalho. Já são 7:10. Você vai se atrasar. 

Olhou para o rosto barbudo e odiado do marido. Maldizia o dia do casamento. Maldizia mais ainda seu trabalho, sua rotina, sua vida. Paciência: tinha que escovar os dentes, tomar banho, pegar trem lotado... Esse era o pior pesadelo, pois não terminaria. Tomou impulso e foi. Não acordou. 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Devagar

Devagar, vou divagar
De vagar, vou me encontrar
De vagar, vou divagar
Devagar, vou me encontrar

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Feriadão

Todo dia, aquela mesma rotina: acordar, beber uma água de coco, andar pela areia, tomar um banho de mar e passar algum tempo na rede ou na espreguiçadeira, sem nada pensar nem fazer. Era exaustivo. Não tinha hora para nada, era senhor de seu próprio tempo, sem a fácil submissão a um relógio que determina quando e o que temos que fazer. A paisagem, monótona: mar, coqueiros, areia, sempre a mesma coisa. Só o céu mudava de vez em quando, variando entre o azul e o levemente nublado, ocasiões em que chovia apenas o necessário para preservar o verde das plantas. Um horror, não conseguia mais suportar essa mesmice. Que vontade de ir para a cidade, onde via carros, ônibus, caminhões, motos, veículos de todas as formas e cores, onde havia um arranha-céu envolto a casas, a favelas, a prédios menores ou maiores, uma enorme variedade geométrica de desenhos para contemplar. E a poluição sonora do mar, isso era o pior de tudo: sempre o quebrar das ondas, uniforme, opressor, não dando trégua jamais. Nada a ver com a cidade, onde inúmeros sons coexistiam, de buzinas de automóveis a pessoas berrando, do ronco do motor de um ônibus aos anúncios gritados de vendedores ambulantes. Essa vida no litoral era um horror. Os remédios receitados pelos psiquiatras não lhe traziam os resultados desejados, embora não evitassem os efeitos colaterais, causando-lhe ansiedade, pânico, aflição. Com essa enorme insegurança que tomava conta da costa, sabia que podia a qualquer momento ser picado por um besouro ou um marimbondo e, por isso, dormia com todas as janelas e portas trancadas, numa sensação de terrível inquietude. Quando ouvia o som de uma simples mosca, acordava assustado, perdia o sono, o que acentuava o caos que era o seu relógio biológico.

A felicidade só era possível quando havia um feriadão. Um simples fim de semana não era suficiente para que ele recarregasse as baterias e se sentisse novamente bem disposto na segunda-feira. Dois dias são muito pouco. Mas, quando chegava um feriadão, aí a coisa era diferente. Pegava seu carro e dirigia para São Paulo, encarando horas de congestionamento. Felicidade, enfim! Viajava com os vidros do carro abaixados, respirando a pureza do gás carbônico dos automóveis a 20 por hora. Por que não podia ser sempre assim? Levava horas até São Paulo e, quando chegava à cidade, sua primeira providência era comprar uma água de coco de caixinha, com seu sabor fantasticamente artificial. Comprava, junto, todas as iguarias que só uma grande capital pode proporcionar, como nuggets, miojo e suco enlatado. A fila para pagar era longa, o que era muito mais terapêutico para ele do que as sessões de terapia que pagava no litoral.

De posse de todas essas mercadorias, entrava novamente no seu carro, parava em vários sinais vermelhos – que, muito mais amigáveis do que a anarquia litorânea, têm a função essencial de facilitar a nossa vida, indicando se devemos seguir ou parar – e trocava algumas palavras com pedintes que lavavam seu para-brisa à força. Passava horas procurando por uma vaga para estacionar, com a sensação libertadora de saber que estava em busca de algo em específico, nada a ver com aquela violência da costa, que lhe oprimia sem lhe dar nenhum objetivo. Depois de, por fim, estacionar, identificava-se ao porteiro do prédio comercial, encaminhava-se ao vestiário e colocava seu traje de férias: terno e gravata. Que beleza, pensava ao se olhar no espelho. A barriguinha escondida, os músculos flácidos escondidos, tudo devidamente encoberto por aquela roupa milagrosa, ao contrário do que acontece com a reveladora sunga de praia. Logo depois, pegava fila no elevador e, passado algum tempo, estava em um andar alto, onde desfrutaria de preciosos momentos no escritório da empresa. Pena que passa tão rápido… Logo já era domingo e hora de voltar para casa. A música do Fantástico anunciava que teria que desfrutar do trânsito de volta ao litoral, engarrafamento este que, embora fosse extremamente agradável, não lhe trazia tanta felicidade quanto o congestionamento da ida, pois, em um, sabia que estava indo para o paraíso de São Paulo e, no outro, dirigia rumo à maldita praia.

Chegava de mau humor ao litoral, mas sabia que assim era a vida. Enquanto não se aposentasse, não poderia sonhar com uma estadia em São Paulo por mais de quatro ou cinco dias. Paciência. O som do farfalhar das árvores anunciava mais uma tenebrosa semana a se iniciar.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Morto

Forte, alto, bronzeado, estava morto. Músculos torneados, cabelos lisos e queimados pelo sol, estava morto. Olhos pretos, barba por fazer, alguns arranhões e cicatrizes, estava morto. Morto, com uma calça jeans rasgada e uma camiseta branca sem manga. Morto, estendido em meio a uma vegetação rasteira, que se movia com o vento que jamais cessava na região. O céu azul, o sol a queimar sua pele mesmo depois de morta. Os insetos o visitavam, pousavam em seu nariz, passeavam por sua boca, deslocavam-se para a sua testa e iam embora. Os mais preguiçosos encontravam abrigo na concavidade dos músculos de seus braços. Uma chuva fina começava a cair, de repente, e logo o sol furava a negritude das nuvens e alcançava novamente o corpo no chão. Mais uma vez, chovia. Agora, o sol, incapaz de uma nova vitória contra as nuvens cinzentas, via a garoa virar tempestade. Ele, morto, desconhecia o número de raios que subitamente caíam na região onde estava seu corpo. Anoitecia. A chuva cessava, mas a noite não tinha luar, a escuridão era plena. Seu rosto, reconhecidamente moreno, tornava-se já levemente pálido, decorridos alguns dias. Silêncio, não havia jamais, porque o vento roçava nas folhas das árvores com o mesmo farfalhar com que os besouros  rasavam no mato em uma dança violenta. Meio-dia. O sol só cega quem enxerga, mas ele está morto. Da chuva que caiu nas últimas noites, não restaram marcas no céu azul, mas sim no chão  algumas poças de água que serviam de bebedouro para pássaros sedentos. Mas, logo, chove de novo. A natureza, indiferente ao falecido, dava alguns espetáculos, como o arco-íris que se formava fruto das constantes alternâncias entre sol e chuva. Ele não vê, pois está morto. Não há muitos animais carnívoros por perto, porém ele não tem sorte, pois já morreu. Além disso, as próprias bactérias já pareciam estar fazendo seu trabalho. Diz-se que um corpo ao ar livre leva de duas a seis semanas para sofrer decomposição, o que não deve tardar, dado o inchaço que já se faz visível. Urubus o visitam. Sangue, não há, nunca houve. Fedor, tampouco: o vento arejava. A cada fim de chuva, os pássaros cantavam mais alto, parecendo comemorar não se sabe se o fato de ter chovido ou o término da precipitação. Dez dias e dez noites já se passaram. Morto, não viu as borboletas brincarem ao redor de seu corpo que já beirava o irreconhecível. O tempo passa. Meia-noite. O planeta inicia mais uma rotação.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Oito minutos antes de sua morte

Oito minutos antes de sua morte, no leito do hospital, minha velha companheira teve ainda força para perguntar:

– O que você viu nela?

Fingi um espanto, mimetizei a surpresa que não me acometeu. Claro: fiquei levemente surpreendido por a pergunta se dar nesse momento, quando ela mal tinha energia para falar, tomada por uma série de máquinas e líquidos, naquele clima hospitalar hostil, mas eu sabia que um dia ela levantaria aquela questão. Ela não morreria sem fazê-lo e, uma vez que sabia que não tardaria a cruzar a fronteira final, não havia outra hora para trazer à tona a inevitável interrogativa: o que eu vi nela, na outra, na amante?
Não adiantava eu dizer que não sabia do que se tratava, que eu não tinha ninguém; seria uma bobagem, a última mentira numa vida de faz-de-conta. Eu sabia que ela sabia; sempre soube que ela soube. Restou-me respirar com pesada autopiedade (pois a piedade que eu tinha era de mim, por ter que responder àquilo em momento tão importuno, não era dela. Ao contrário: quanto a ela, bateu-me uma vontade de machucá-la, ofendê-la, ser sincero pela primeira vez na minha longa vida conjugal). Respondi:

– O que eu vi nela, inicialmente, foi beleza. Esse foi o primeiro motivo por eu ter preferido ela a você. Ela é mais jovem, mais bonita, mais saudável: sempre foi mais saudável, sempre cuidou mais de si. E mais de mim, também. Ela sempre me tratou muito melhor do que você. Ela me deu todos os carinhos que você não me deu e me beijou todos os beijos de que você se esqueceu. Ela é melhor na cama, também. No início, você era boa; depois, ficou meia-boca; posteriormente, ruim e, por fim, inexistente. Com ela, nunca dormi insatisfeito. Além de todas as proficuidades do corpo, ela tem vantagens quanto ao espírito. Enquanto você me enche o saco com banalidades do cotidiano, ela sabe como ninguém retirar do mesmo dia-a-dia fontes de singelas felicidades rotineiras. Por fim, mas não menos importante: cansei da sua burrice. Sem hipocrisia: só é hipócrita quem teme o futuro e nós não temos mais futuro juntos, você já está para morrer. Não vou mais fingir um relativismo inventado, dizer que existem várias formas de inteligência etc. Não: você não é inteligente nem se esforça para ser. Você não tem o mínimo de cultura. E dane-se se isso parece piegas, mas não posso deixar de preferir ela, leitora de Thomas Mann, a você, leitora de Caras.

Eu ia citar mais coisas, dizer que só não havia ainda me divorciado por inércia, preguiça, conjuntura social, quem sabe para não machucar as crianças, mas achei que já estava bom demais. Ela não me respondeu – coitada, nem podia. Em vez disso, tocou minha mão e olhou nos meus olhos como quem tem algo a dizer, mas não pode ou não quer falar. Seu olhar tinha um brilho úmido, mas nenhuma lágrima escorreu. Era um olhar apaixonado, eu diria. Acho que pela primeira vez me amou. Adormeceu eternamente com um sorriso. Um sorriso que, de alguma forma, eu propiciei.
E, aqui, poderia acabar a história. De fato, quando a relatei a amigos, só falei até essa parte. Entretanto, só recentemente me veio uma forte lembrança, não sei se fruto da idade que começa a me pesar – e, portanto, começo a ver chifre em cabeça de coelho – ou se apenas recalquei essa memória por anos. Ela adormeceu com um sorriso, mas minha nova interpretação daquele gesto labial não é mais a de que ela me amou pela primeira vez. Digo: talvez, tenha me amado, sim, naquele momento, acho que aqueles olhos não enganavam. Mas havia algo além. O riso retorcido não era de alguém apaixonado, mas de alguém que se divertia. Ela morreu feliz, mas possivelmente não por amor, mas por graça – ou, explicando-me: por achar graça de mim. Riu zombando da minha cara. Zombando, sim: era um sorriso zombeteiro, era isso. Agora, por que debochava de mim, não sei. Mas estou convencido de que algo em seus mais íntimos segredos lhe dizia que, por alguma razão que desconheço, eu era adorável – e não detestável, como seria de se supor –, mas, acima de tudo, que eu era um idiota.